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quarta-feira 12 agosto 2020
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Crônica do Tempo – Rolando Boldrin

Crônica do Tempo
Rolando Boldrin
 
Pra mim o mundo é um relógio
E, e o dinheiro é a mola
que controla os relógios dessa vida
 
Se o senhor tivé tempo
pra ouvir a minha história
Eu começo lhe contando
que toda a minha vida
foi um grande desencontro
entre o tempo do relógio e as oportunidades
 
Deus Nosso Senhor que perdoe
a minha sinceridade como um segredo
Mas inté hoje não entendi
pru que é que pra tudo na minha vida
eu sempre cheguei muito tarde ou muito cedo
 
Pra começá nasci fora do tempo
sou de sete meses
E se foi cedo demais
pra dar dores e tristezas à minha mãe
com essa minha pressa de nascê
Foi tarde demais
pra dar alegria ao meu, pai coitado
Ele morreu antes de me conhece
e aí começa o meu rosário
com o tempo do relógio
 
Já na idade de ir pra escola
foi um tormento
Minha mãe, coitada
corria pra lá e pra cá comigo de mão dada
e sempre recebendo o mesmo desengano, coitada
“Não pode, dona, só pro ano
é cedo ainda” ou então
“Tarde demais, dona
as matriculas já tão todas fechadas”
 
Com o tempo eu fui crescendo
já mocinho eu procurava emprego
Porta de oficina, serviço diferente
coisa de pequena paga
E aquelas palavras do tempo me seguindo
sempre acontecendo comigo
como um relógio do destino
“Olha moço não tem vaga
se você tivesse sido esperto
Agora o quadro de funcionários já tá completo”
 
Eu me lembro
que inté pro amor eu me atrasei
Quando pra aquela cabocla
que eu gostava me declarei
ela falou pra mim
“Você chegou tarde demais
já dei meu coração pra outro rapaz”
 
Mesmo assim um dia me casei
e desse casamento nasceu
um menino bonito que só vendo
Foi a única coisa que me chegou na hora certa
porque ele foi a porta aberta pro meu riso
riso que eu já nem sabia mais como era o jeito
Dei a ele o nome de Vitório
ia ser meu grande vingador
pra me vingá do tempo, me me vinga das hora
dos relógio e inté dos segundo e de tudo
Me vingá dos donos desse relógio que é o mundo
Vitório o meu grande vingador
 
Vitório foi crescendo como pode
Logo já tinha cinco ano e a vida
o tempo, o tempo como um inimigo traidor
sempre me espiando
Um dia Vitório adoentou-se
como acontece com quarqué criança
e eu trabalhava num faz de tudo ao mesmo tempo
pra nenhum remédio lhe fartá, eu tinha esperança
Num dia só fui camelô, bilheteiro
entregadô de encomenda, jardineiro, tudo!
E chegava em casa moído e fedorento
de suor pra lhe abraçá e lhe beijá
e o coitadinho encuído, magrinho
dava dó, tava sofrendo
 
Então o douto truxe pra vê ele
é home bão, atencioso
que logo dispois de examiná falô assim
“Corre, vá depressa compra essa receita
seu filho não tá bão quem sabe se com isso ele se ajeita”
E chacoalhando a cabeça foi-se embora
quem sabe aconseiando uma promessa
 
Como eu não tinha dinheiro pro remédio
dei de garra num véio despertadô lá de casa
a única coisa de valor
pensando que podia vendêr ele num brechó
e saíi correndo, bem correndo
Mas inté hoje não entendi
pru que ouvi uns grito na rua
“Pega ladrão, pega ladrão! “
e gente amuntuando pro meu lado
quem sabe imaginando
que eu era argum malfeitô
E foi soco, bordoada, pontapé
e quando eu pude percebê
já tava de pé na frente de um delegado
 
Doutô, meu filho tá doente, tá morrendo
por favô, eu tenho aqui uma receita ó
e supliquei chorando
O tár delegado intão acreditando falô pro guarda
“Pega o carro da rádio patrulha, leva o moço”
e me entregando um toco de dinheiro do seu borso, arrematô “Corre, corre
compra o tár remédio pro seu filho na farmácia”
 
Eu fui embora correndo, correndo
correndo comprei o remédio e vortei feito um raio
feito um raio lá pra casa
Mas como sempre na vida
eu corri contra o tempo, esse covarde
Quando abracei meu filho é que eu vi
mais uma vez eu tinha chegado tarde



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