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quinta-feira 4 junho 2020
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Um Coroinha Pequeno Demais – Cel Claudio Vogt

Resultado de imagem para coroinha das antigas

 

………Os ANOS 60 foram parecidos.
O Brasileiro entrou nos “ANOS DOURADOS” de mãos dadas com DEUS.
No SARANDI, com menos de cinco mil almas, chegavam jovens vindos dos seminários e dos quartéis do EXÉRCITO.
Contavam histórias incríveis.
As vocações despertavam.
Alguns moços iam estudar em outras cidades, estados, países…
Um deles foi trabalhar em NOVA YORK.
Há Sarandienses nos quatro cantos do mundo.
É difícil, até, contar quantos doutores.
A personalidade e a inteligência dos PAPAS (PIO 12 e JOÃO 23) davam à Igreja Católica protagonismo mundial.
………Os jovens eram puros, leais, fiéis… Ninguém lograva ninguém.
A pureza da juventude aparecia nas canções.
Na música italiana: “ANDARE VIA LONTANO / CERCARE UN ALTRO MONDO /  CIAO, AMORE, CIAO” (2º lugar no Festival da Canção da ITÁLIA ). Na música brasileira: “JÁ QUE TERMINAMOS / SÓ RESTA, AGORA, O ADEUS FINAL / TE AMAR DEMAIS / SER UM BOM RAPAZ / FOI O MEU MAL…”.  A ITÁLIA e o BRASIL viviam a Era do Pecado.
Todos sentiam remorso. Todos tinham medo de DEUS.
Aos sábados à tarde, íamos nos confessar na Igreja Matriz.
A Primeira Missa acontecia no Cinema. E no mundo real: no SARANDI, na BOA VISTA, no MONTENEGRO, no CARAZINHO, no PARECI…
Hoje, fazemos de conta que não existe pecado.
Mas estamos fazendo pecados, às vezes, até bem mais graves… com outros nomes.
Y………O meu irmão, CLÓVIS (“LETO”), era Escoteiro e Coroinha.
A foto dos Coroinhas de 60 plange!
Pequenos episódios mudam o itinerário das pessoas.
Quando o  Chefe dos Escoteiros aumentou a mensalidade, o PAI (FRIDOLINO) retirou o meu irmão do Escotismo.
Para sempre!
Eu nem cheguei a assumir como Lobinho.
A época era de inflação crescente.
Os comerciantes não conseguiam repor os estoques.
Na minha família, a situação era a seguinte: o PAI queria que os dois guris fossem Padres.
O CLÓVIS foi para o Seminário de TAPERA.
Eu me alistei como Coroinha, na Paróquia Nossa Senhora de LOURDES.
Naquele saudoso ano de “62”, o Vigário era o Padre ERNESTO.
………Eu gostava de ajudar na Igreja.
O ambiente era bom.
Éramos bem tratados.
Após às missas, os Coroinhas ganhavam alguns Cruzeiros.
O que faltava era um pequeno Curso para preparar os guris para a função.
Não havia Coroinha menina, devido  à cultura da época.
Os cargos mais importantes eram reservados aos homens.
………No meio da semana, morreu um homem importante.
Os Coroinhas foram chamados.
Só apareceu um, o mais pequeno.
Formou-se uma multidão.
Com o Padre ERNESTO na frente, seguimos, no meio da tarde, em coluna dupla, pela Avenida EXPEDICIONÁRIO.
Eu me sentia orgulhoso.
Havia largado o bodoque por algumas horas.
Estava participando da vida da Cidade.
Com o traje de Coroinha, me sentia o máximo!  
Na frente do  BERTOCHI (“TITUM”), falaram comigo: “QUICO, quem morreu?”.
Pensei um pouco e respondi: “O TOAZZA!” (É que havia muitos moradores com este sobrenome…).
………Quando chegamos no encontro das avenidas, o Padre me disse que havia esquecido do material. Falou para eu ir correndo até a Casa Canônica e buscar o incenso…
Saí correndo no sentido contrário ao da procissão.
Olhavam-me com surpresa.
Eu até imaginava o que aquelas pessoas, a maioria de origem italiana, comentava:
“Por que o filho do FRIDOLINO está correndo morro a cima, com a fatiota de Sacristão, se a procissão caminha morro a baixo?”… “
Será que ele piorou?”.
………Ao chegar na Casa Canônica, parei de correr, repentinamente.
Cometi uma falha grave!
Eu deveria ter parado aos poucos.
Senti falta de ar.
Do pulmão para cima, tudo ardia.
A traquéia, faringe, laringe, esôfago… os “caninhos do pulmão”.
Para resumir: pensei que eu ia morrer.
Apareceu uma senhora para me ajudar:
“O que que tu qué, piá?”.
Com a garganta funcionando a 10%, respondi: “NÃO CONSIGO SUSPIRAR!”. (nós falávamos errado; e escrevíamos como falávamos).
………Após alguns minutos, pedi o material (Um aparelho de fazer fumaça).
Perguntei-lhe se, em todos os enterros, o Coroinha tinha que vir buscar alguma coisa.
Ela respondeu:
“Não. Esta foi a primeira vez que o Padre esqueceu.”
Agradeci.
Voltei correndo atrás da procissão.
Consegui entregar o incenso, ao Padre ERNESTO, antes da entrada do Cemitério.
Como dizem os soldados:
“Missão cumprida!”
A sepultura ficava perto do Estádio PEDRO DEMARCO.
Os discursos em homenagem ao falecido coincidiram com o treino da equipe titular do HARMONIA. Houve momentos em que as frases se intercalaram: –
“Foi um bom homem!” – “SOLTA A BOLA, FOMINHA!” – “Ajudou a construir o nosso SARANDI!” – “LEVA A BOLA PRA CASA!” –
“Foi um chefe de família exemplar!” – “CHUTA, ROGÉRIO!”… Parece engraçado. Mas, para mim, foi uma tarde triste…
………No domingo seguinte, na minha segunda Missa, faltou o Sacristão da Sineta.
Fui escalado.
Recebi algumas orientações, ”em cima da hora”.
Os cientistas trabalham com afinco, ainda hoje, para entender a memória do homem.
Às vezes, ela funciona.
Às vezes, não funciona.
Eu era perfeccionista.
Não queria errar nada.
Porém, naquele dia, não toquei a sineta corretamente.
Passei vergonha.
Fiquei com o orgulho ferido.
Foi um trauma?
………O senhor leitor deve estar pensando:
“Será que estas coisas pequenas são importantes?”.
Na minha opinião, são! Eu era pequeno e imaturo.
Mas era sério.
Foi por causa do incenso e da sineta que abandonei, para sempre, a carreira religiosa.
Mas devo reconhecer que a chama da religiosidade… nunca se apagou no meu peito!
No que tange às vocações, assisti ao trabalho de um Padre Italiano.
Algo havia que lhe dava mau humor.
Deu um tapa no rosto de um guri que não parava quieto.
Do púlpito, condenou a imoralidade.
Nem sempre foi compreendido
. Recebeu fotografia de mulher sedutora.
O que ele mais queria era formar uma família.
Um dia, para fugir do cerco da tristeza, deixou um bilhete, no idioma italiano, e foi embora para sempre. Em elegante caligrafia, proclamou: “FUGO DA UNA VITA CHE NON HO MAI VOLUTO ABBRACCIARE!.” (Em Português: “FUJO DE UMA VIDA QUE NUNCA QUIS ABRAÇAR!”).
Em defesa daquele ex-sacerdote: que jogue a primeira pedra quem jamais caiu numa armadilha das vocações!
………Escritores de todo o mundo já registraram a semelhança entre o rio e o homem. As águas não param. Desviam as pedras do caminho.
E voltam para o mar…
E o homem?
O homem desvia de um incenso.
Foge de uma sineta.
Tropeça numa fotografia… mas sempre volta para DEUS.

………Por vezes, quando reflito sobre as tremendas consequências, que resultam das pequenas coisas… Fico tentado a pensar… que não há pequenas coisas.” (BRUCE BARTON).



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