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domingo 17 janeiro 2021
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Churrasco na terça, falsos vendedores e cordiais com a vizinhança: como quadrilha que aterrorizou Criciúma vivia em Três Cachoeiras

churrasco começou a partir das 22h da terça-feira (1º) na última casa da Rua Porto Guerreiro, na área rural de Três Cachoeiras, no Litoral Norte. Ao menos 30 pessoas se amontoavam em um quiosque e vários carros estavam estacionados na saída do portão. O cheiro da carne, o odor de maconha e as risadas altas chamaram atenção da vizinhança para a movimentação que se estendeu por cinco horas.

A confraternização destoava da rotina discreta dos novos moradores chegados há pouco mais de um mês na comunidade Santo Anjo. Pelo local, descoberto pelas polícias gaúchas e catarinenses na manhã desta quinta-feira (3), passou parte da quadrilha que aterrorizara Criciúma na madrugada de segunda para terça-feira, durante o assalto à Tesouraria do Banco do Brasil.

Em meados de outubro, os criminosos alugaram um espaço com dois terrenos. De um lado, uma casa de madeira azul, com dois quartos, banheiro, cozinha e sala, e um quiosque com churrasqueira nos fundos (assista o vídeo abaixo). Do outro, uma garagem que servia de depósito. A proprietária da casa, que vive na Serra, alugou o imóvel quando outro inquilino o ocupava  em caráter provisório. Os novos moradores ofereceram R$ 15 mil para ele deixar a casa em dois dias. O homem estranhou, mas aceitou o dinheiro e saiu.

 

Situada em uma via de estrada de chão batido, em meio a zona rural, a casa tem uma vista bucólica e localização privilegiada: está a 800 metros da BR-101 e a 100 quilômetros de Criciúma.

Antes da mudança, sondaram a vizinhança. Queriam saber se o local era violento, se tinha assaltos e frequente presença da polícia. Os criminosos contaram aos moradores que eram vendedores de frutas. Uma das vizinhas foi até presenteada com cinco abacaxis. Outra moradora disse que nunca percebeu movimentação de carga e descarga de mercadorias, mas reparava o vaivém de um caminhão e um furgão. Mediante a condição de anonimato, GZH conversou com quatro pessoas que tiveram contato com os criminosos.

Era placa de Brasília e sotaque de São Paulo. Até pensei que pudesse ser tráfico de drogas, mas a gente nunca imagina que o vizinho vai explodir um banco.

MORADORA DE SANTO ANJO

Prefere não se identificar

A diferença da origem das placas dos veículos chamou atenção de uma delas. O furgão era de Penha (SC), o C4 Palas, de Brasília, e o caminhão, de São Paulo:

— Era placa de Brasília e sotaque de São Paulo. Até pensei que pudesse ser tráfico de drogas, mas a gente nunca imagina que o vizinho vai explodir um banco — conta a mulher.

Em meio a uma rotina discreta, os criminosos eram gentis e respeitosos com os moradores. Antes de manobrar o caminhão, pediam licença do vizinho para ocupar o pátio da frente. Uma mulher com quem GZH conversou conta que foi chamada para fazer faxina na casa. Trabalhou das 7h às 16h e cobrou R$ 80 pelo serviço. Ganhou R$ 100.

“Nunca imaginei que eles estavam aqui do lado”, diz moradora

Por volta das 7h desta quinta-feira (3), os moradores da comunidade de Santo Anjo que vivem na mesma quadra que os criminosos foram acordados por homens da equipes de elite das polícias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Fortemente armados, com máscara e o uniforme que os identifica, os PMs bateram à porta dos vizinhos mais próximos para explicar o que estava acontecendo. A comunidade entrou em choque:

— Comecei a suar frio, achei que ia passar mal — conta uma moradora.

Soube do assalto de Criciúma pela TV. Até fiz uma oração porque gosto muito dessa cidade. Nunca imaginei que eles estavam aqui do lado.

MORADORA DE SANTO ANJO

Prefere não se identificar

Outra vizinha chorou quando GZH perguntou como se sentiu ao ser informada do motivo da operação:

— Soube do assalto de Criciúma pela TV. Até fiz uma oração porque gosto muito dessa cidade. Nunca imaginei que eles estavam aqui do lado.

Incrédula, a vizinhança despertou com som do helicóptero da PM de Santa Catarina e diversas viaturas. Pela manhã, enquanto peritos do Instituto-Geral de Perícias (IGP) coletavam material na casa, os moradores tentavam entender como não suspeitaram de nada.

— A partir de agora, quem vir morar aqui na rua, vamos entrevistar antes — brincou um morador.

Os moradores da Rua Porto Guerreiro não viam os novos vizinhos circulando pela via a pé, nem ouviam barulhos na casa – exceto na noite do churrasco:

— Não incomodavam ninguém. Não fizeram mal pra nós. Só saiam de casa com o caminhão. Me disseram que iam trazer frutas, melancias e abacaxi. Até hoje as frutas não chegaram.

Isadora Neumann / Agencia RBS
Policiais de elite de Santa Catarina e Rio Grande do Sul acordaram moradores próximos da residênciaIsadora Neumann / Agencia RBS

Sensibilizada pelo trabalho da polícia, uma vizinha serviu pão sovado, rosquinhas, bolo, café e água mineral para os agentes:

— Nunca imaginei ver tanto policial junto. Fiquei chocada, eram uns vizinhos bons. O que aconteceu hoje foi uma cena de terror.

Conforme o major Lúcios Carvalho, subcomandante do Bope de Santa Catarina, parte da quadrilha foi para o imóvel em Três Cachoeiras após o assalto em Criciúma:

— Fizeram a transição de veículos aqui. Foi um plano quase perfeito. Eram discretos, pragmáticos, a coleta de DNA e sangue que faremos aqui será muito importante para a investigação.

Um homem, natural do Paraná, mas com documento de identificação de Sorocaba (SP), foi preso pois estava dentro da casa. Ele disse que recebeu R$ 5 mil para destruir provas. A polícia, no entanto, chegou antes de o homem incendiar itens que estavam na residência:

— Esse preso tinha uma função periférica dentro da quadrilha. Eram muitos, com funções definidas e diferentes. Felizmente chegamos antes.

Isadora Neumann / Agencia RBS
Frente da casa usada como ponto de apoio por suspeitos de atacarem banco em Santa CatarinaIsadora Neumann / Agencia RBS

Sete celulares, um deles destruído, e notas de R$ 100 rasgadas foram encontradas na casa.

Dentro da residência, havia muita comida estocada: pães, sucos, cerveja, água, paçoca, frutas, café e arroz. GZH contou pelo menos oito colchões, travesseiros e roupas de cama ainda na embalagem.

No pátio do depósito, mais de 100 caixas plástica de frutas vazias justificavam a versão que deram aos vizinhos.

Fonte GZH




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