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Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva(Giovani Grizotti)

Escrevo-lhe do passado.
Das trincheiras frias do século XIX.
Dos campos onde homens a cavalo sonharam com um Rio Grande mais respeitado dentro da nação brasileira. Escrevo-lhe do tempo da Revolução Farroupilha, quando o povo gaúcho se levantou contra o abandono, contra a desigualdade e contra a sensação de entregar muito ao Brasil e receber pouco em atenção e reconhecimento.
Naquele setembro de 1835, quando começavam os primeiros movimentos de uma guerra que duraria dez anos, talvez poucos imaginassem que a chama farroupilha atravessaria os séculos e permaneceria viva até os dias de hoje.
Hoje, atravesso o tempo apenas com palavras. Já não se fazem guerras com lanças, espadas ou pólvora.
Na República moderna, os combates precisam ser travados com diálogo, representação política e justiça entre os povos desta mesma pátria.
Mas confesso, Senhor Presidente: ao olhar o Brasil do presente, percebo que algumas inquietações do meu tempo ainda sobrevivem.
Chega aos meus ouvidos, vindos deste futuro distante, que o Ministério do Turismo destinou R$ 45 milhões para promover as festas de São João na Paraíba, estado natal do titular da pasta.
A celebração é legítima, grandiosa e merecedora de valorização, frise-se. Contudo, daqui do passado, ecoa uma pergunta inevitável: por qual razão a Semana Farroupilha, uma das maiores manifestações culturais populares do Brasil, ainda não recebe reconhecimento semelhante?
Vejo que os gaúchos continuam reunindo multidões em acampamentos, rodeios e cavalgadas.
Vejo galpões cheios, comércio aquecido, hotéis ocupados e famílias inteiras mantendo viva a cultura do Sul.
Vejo um povo que preserva sua identidade geração após geração, mesmo sem o respaldo proporcional do poder nacional.
Também reconheço, olhando deste passado para o presente, que houve avanços importantes.
Vejo a cultura gaúcha ligada ao turismo, movimentando cidades inteiras e atraindo visitantes de diversas partes do Brasil.
Vejo o regionalismo entrando nas escolas, ensinando às novas gerações os valores, os costumes e as raízes do Rio Grande.
Vejo crianças aprendendo sobre tradição, civismo e pertencimento.
Mas também percebo que ainda é preciso mais.
Porque tradição não sobrevive apenas da boa vontade do povo.
Ela precisa de incentivo, investimento, planejamento e reconhecimento institucional compatíveis com sua importância cultural e econômica.
E então compreendo que o velho sentimento farroupilha ainda resiste no coração do Rio Grande.
Não se trata de pedir privilégios.
Nunca foi.
Também em meu tempo queríamos apenas respeito, equilíbrio e reconhecimento pela contribuição do Sul à construção do Brasil.
Queríamos que nossa voz tivesse peso.
Mas seria injusto culpar apenas Brasília.
Deste passado distante, também observo o silêncio daqueles que deveriam defender o tradicionalismo gaúcho no presente.
Onde estão os representantes do Rio Grande quando chega a hora de buscar investimentos permanentes para a Semana Farroupilha em Brasília?
Onde está a mobilização da bancada federal?
Onde estão os homens públicos que vestem a pilcha em setembro, mas desaparecem quando o assunto é orçamento, incentivo cultural e políticas públicas?
Vejo que muitos seguem usando a tradição como fotografia eleitoral, mas poucos a defendem verdadeiramente dentro dos espaços de poder.
E isso talvez seja o mais preocupante.
Porque aprendo, olhando este Brasil do futuro, que os tradicionalistas precisarão compreender a importância de eleger representantes comprometidos com os CTGs, com as invernadas, com os rodeios, com as cavalgadas e com a preservação da cultura gaúcha.
Representantes que conheçam o cheiro do fogo de chão e que saibam que tradição também significa desenvolvimento econômico, turismo e geração de oportunidades.
Sem representação forte, organizada e permanente, o tradicionalismo seguirá sobrevivendo apenas da paixão do próprio povo gaúcho — muito abaixo da grandeza que merece ocupar no cenário nacional.
A cultura gaúcha não pede favores.
Pede oportunidade para mostrar, ao Brasil e ao mundo, a força de uma tradição que ajudou a construir a identidade nacional.
Que esta carta sirva não como afronta, mas como reflexão republicana.
Porque a chama farroupilha permanece acesa. E, nos dias atuais, ela deve iluminar consciências — nunca alimentar divisões.
Com respeito e espírito republicano
General Bento Gonçalves da Silva
Giovani Grizotti _ Reporter Farroupilha.