Foto : Leco Viana / The News2 / Estadão Conteúdo
A Polícia Civil de São Paulo fez uma análise financeira de quase uma década de movimentações de recursos que ligam a cúpula do PCC à advogada e influenciadora Deolane Bezerra Santos e constatou que o uso de fintechs fez explodir o total de valores movimentados pelo grupo criminoso. A informação consta da representação da Polícia Civil à Justiça pela decretação da prisão dos suspeitos, entre eles Deolane e o líder da facção, Marco Camacho, o Marcola ou “Narigudo”. O Estadão busca contato com a defesa. O espaço está aberto.
A Justiça também decretou a prisão de outros cinco investigados, inclusive do chefe da facção, Marco Camacho, o Marcola, que já está custodiado em presídio de segurança máxima em Brasília, condenado a 300 anos. A conclusão dos investigadores sobre a “explosão” provocada pelo uso de fintechs pelo crime organizado se baseia na análise do período de movimentações financeiras de Deolane, entre 9 de julho de 2022 e 9 de maio de 2024, para o grupo de pessoas físicas e jurídicas por ela usadas.
Padrões de fracionamento
De acordo com a polícia, o cruzamento de dados bancários e fiscais permitiu ainda identificar padrões típicos de fracionamento, pulverização e circularidade de valores, além de recorrentes transações envolvendo empresas com indícios de funcionamento incompatível com sua natureza declarada.
Ambiente financeiro digital
Eles evitaram usar a Operação Carbono Oculto, que apurou a captura do setor de combustíveis pelo PCC, como exemplo do emprego de fintechs pelo crime organizado. Depois da descoberta da relação das contas bancárias de Deolane Bezerra dos Santos com a movimentação do dinheiro da transportadora Lado a Lado, controlada pelos irmãos Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Alejandro Herbas Camacho, o Júnior, a Polícia Civil de São Paulo fez uma devassa nas empresas em nomes dos investigados e de seus familiares.
A Polícia indica cinco empresas com as quais a advogada teria algum tipo de participação como sócia. Em nome de Deolane, os policiais encontraram uma empresa em Santo Anastácio, cujo endereço era usado ainda por outras 12 pessoas jurídicas. O lugar simples – um imóvel de paredes de madeira na periferia da cidade – seria um indício de que todas as empresas ligadas à Deolane são mera fachada.
O contador de Deolane
Todas essas empresas tinham um mesmo contador – Eduardo Affonso Rodrigues, que passou a ser investigado também. Outra empresa em nome de Deolane, na cidade de Martinópolis, ficava em um endereço onde estavam registradas mais 15 empresas. A reportagem não conseguiu localizar sua defesa.
Em um terceiro endereço ligado ao contador, os policiais encontraram o registro de outras nove empresas. Os policiais verificaram ainda as relações amorosas de Deolane e constataram que ela tem um filho com um ex-presidiário, de quem foi advogada. Durante as investigações, Deolane chegou a fazer um boletim de ocorrência denunciando que seus dados pessoais estariam sendo usados para a abertura de contas em bancos.
Laranjas de Deolane
O esquema utilizava ainda laranjas para movimentar recursos. Deolane teria adquirido carros de luxo – dois Land Rover e um Porsche avaliado em R$ 1 milhão – e um terreno em Tamboré. A Polícia apurou que a irmã da advogada, Dayanne Bezerra dos Santos, também movimentava recursos do grupo. Em 2023, ela tentou sacar R$ 1 milhão em espécie de uma agência do Itaú.
O banco reagiu e concedeu um prazo de 60 dias para que a advogada encerrasse sua conta – ela mantinha cerca de R$ 10 milhões investidos. Deolane girou parte desses recursos por meio da Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda, pelo menos R$ 12,9 milhões, segundo o inquérito policial. Ela também utilizava a empresa Deolane Bezerra Holding Participações Ltda e a Bezerra Produções Artísticas Ltda. O esquema usaria ainda dois lava-rápidos, uma pizzaria, um restaurante, três empresas financeiras e de cobrança e uma empresa de roupas.
A Operação Vérnix saiu às ruas logo cedo, nesta quinta-feira, 21, para cumprir ordem de prisão contra seis alvos – além de Deolane, o líder do PCC, Marco Herbas Camacho (Marcola “Narigudo”), um irmão dele, Alejandro Camacho, e dois sobrinhos: Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho.