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terça-feira 21 novembro 2017
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Morte no parque central – Claudio Vogt

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MORTE NO PARQUE CENTRAL

Ao chegar no Parque mais importante da Capital Gaúcha, parei para ver o trenzinho, cheio de crianças felizes. Embarcado no 2º vagão, havia um cachorro de raças misturadas. Estava adorando o passeio. Não precisaria dizer que a auto-estima dele estava lá nas nuvens… O empresário, um idealista, investiu R$ 300.000,00! Valeu à pena! Há, nesta vida, coisas que não sabemos medir em moedas. Aquele trenzinho musical tem a marca do Parque, que outrora era uma chácara do Dr Borges de Medeiros. Não se vê ninguém triste. Como não tenho tempo para ir à Nova York, aqui é o meu Parque Central…

Sob as primeiras árvores, uma Patrulha da Brigada Militar estava resolvendo um conflito, entre alcoolizados. Um homem magro  queria agredir, com uma faca, uma morena. Um crime passional era iminente. O Cabo apontou uma arma de fogo para o homem furioso e, com energia, declarou: “LARGA A FACA!” O bêbado largou a faca no chão. Os Soldados colocaram algemas nele. Levaram-no para a viatura e para o Palácio da Polícia. Os criminosos são sempre os mesmos. Alguns já tiveram várias passagens pela Polícia. A Brigada Militar perde muito tempo com o retrabalho. A impunidade vigora. O Tenente, para fazer uma operação, tem que ter autorização do Juiz. O bandido atua livremente, em duplas ou trios!

E as armas brancas? Por que, durante as revistas, não são apreendidas? Porque ficam escondidas pelo Parque! São perigosas? Sim! Nem sempre é possível salvar a pessoa ferida. Há situações dramáticas em que o Hospital fica longe…

Passada a tensão inicial, pois poderia ter havido balas perdidas, vivi momentos de emoção e esperança. Parei, sem querer, diante de um evento religioso. Três moças, de pé, na parte alta do gramado, tocavam violão e cantavam músicas sacras. Por volta de 50 moças estavam sentadas no gramado. Assistindo a apresentação e comendo bolo. Duas meninas afáveis percorriam o local com bandejas, servindo pedaços de bolo. Uma delas parou na minha frente: “O senhor quer um pedaço?” A tentação era grande. Respondi: “Não. Obrigado. Na verdade não posso. Bolo engorda. A sogra controla o meu peso…”

Não basta ver os fatos. Temos que ler nas entrelinhas. Aquelas gurias meigas e disciplinadas provaram que é possível construir um mundo pacífico, alegre e agradável. Elas têm DEUS no coração. A falta de DEUS deixa um grande vazio na vida dos materialistas. Elas confirmam a leitura da Bíblia, feita pelo Sacerdote: “A árvore boa dá bons frutos!” O mundo das drogas produz crime, sangue, solidão, lágrimas, perda da Liberdade…

Surpreso com a descoberta, esqueci-me de perguntar o nome da religião. Mas eu não gosto de ficar parado. Continuei caminhando. Encontrei dois homens caídos. Um deles estava torto, debaixo de um banco. Apagou. Não deu tempo para escolher o local para deitar. Como caiu, ficou. Uma testemunha disse que ele está bebendo todos os dias! São vidas que se apagam ao entardecer…

O outro era o Sr Antônio. Estava com um ferimento no lado direito da  testa. Deve ter havido um pouso forçado. Avisei aos amigos dele. Um vendedor de refrigerantes esclareceu: “Ele está abandonado pelos filhos. Não precisa avisar à Brigada. Daqui a pouco, a cachaça evapora e ele se levanta…!” Para vencer a bebida, o apoio da Família é fundamental. Mas o dependente químico tem que fazer a sua parte… O Sr Antônio não se ajuda!

Um vendedor de alguma coisa parou na minha frente: “Velho, quer comprar um baseado?” Respondi: “Não! Se eu fumar um baseado, o Exército desmorona!” Próximo ao gramado central, uma Voluntária de ONG estava oferecendo 4 filhotes de cães para adoção. Um mais bonito do que o outro! Engraçados, brincalhões… Até escurecer, com certeza, eles terão um novo lar… Tenho destacado-me pelo espírito crítico. Mas, reconheço, que o Gaúcho é um cidadão de boa vontade. É patriota, trata bem os animais, colabora, participa, ajuda, carrega no peito um coração verde e amarelo… O morador da capital, por sua vez, sempre apressado, ao empunhar volantes modernos, esquece a gentileza, em algum lugar do passado… Quem puder, salve-se!

Passei por uma senhora de 94 anos. Caminha todos os dias, sem bengala. Ela é um exemplo para todos nós. Principalmente para quem tem estilo de vida sedentário ( fator de risco ).

Um militar da Reserva me contou que a Brigada Militar enfrentou, na semana passada, dois bandidos, próximo ao lago maior. O que estava desarmado foi preso. Era perigoso. O que estava armado fugiu. Continua solto por aí… É violento! O perigo continua…

Saiu, do meio do bosque, uma jovem bem humorada. Estava estudando para o ENEM. Quer ser Veterinária. Estava sozinha. Não era a única! Ostentava o celular. Conversamos sobre os livros. Ela quer ler o “Coração de Soldado”. Valoriza os animais. Não conhecia algumas regras de segurança… Decidiu convidar alguém para caminhar com ela. Escolher os locais e horários. Esconder o aparelho. Não reagir, em caso de assalto. Os bandidos operam em duplas ou trios. São mais fortes do que os estudantes. Andam sempre armados. Não respeitam as câmeras de segurança… São violentos. Desprezam a vida… Vendem objetos para comprar drogas. Os traficantes dirigem carros importados…

Havia mais de duas mil pessoas no Parque! No meio daquele povo todo, alguém me chamou: “Coronel!”… Era o Cigano. Disse, entristecido: “A Alemoa vai voltar para Santa Catarina: levaram o cachorro dela!” Respondi: “O Thor era como um filho… Ela está sozinha no mundo!”

Eu parei, pensativo… Por quê? Um Parque de contrastes, num Brasil de contrastes…Havia, perto de mim, duas motos ROCAN, da Brigada Militar. Escutei mensagem pelo sistema de rádio: “Sargento, temos um problema na Avenida João Pessoa!” Com presteza, um grande aparato policial se deslocou para lá… Algumas áreas do Parque já estavam escuras. Envolto pelos colegas, um jovem universitário estava caído, pálido, ferido por arma branca, segurando a mão da Namorada. Um colega de aula disse que o amigo, apenas, segurou a mochila… O drogado entendeu que houve uma reação… Oriundos de uma Cidade da Região Metropolitana, conheceram, numa mesma jornada, o “inferno” e o “paraíso”… Sirenes, luzes, perícias, repórteres, motos, ambulâncias, viaturas, Força Nacional… até os sinos bateram… Os Soldados da Brigada Militar e do Corpo de Bombeiros são merecedores do nosso aplauso. Heróis, 24 horas por dia! Mas, a guerra estará perdida, se não educarmos a criança… se não mudarmos  o coração do homem.

CLAUDIO FREDERICO VOGT – Coronel do Exército

 




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